Ainda que os incentivos políticos sejam pela manutenção da estratégia de estímulos econômicos, não há espaço fiscal e monetário para grandes movimentos.
Roberto Padovani
13 de maio 2025
Uma das grandes histórias de 2025 está na política. Com a queda da popularidade do presidente, não apenas a corrida presidencial de 2026 foi antecipada, mas aumentou a competição política e, com ela, as dúvidas sobre as possíveis reações do governo a este cenário.
Três hipóteses podem ser consideradas. A primeira é otimista. Os modelos de ciência política mostram que tensões financeiras costumam impactar as condições de consumo e afetar a avaliação de governo, um bom indicador antecedente do sucesso eleitoral do incumbente. Neste caso, a eventualidade de uma crise seria um incentivo para uma mudança da estratégia econômica, abrindo espaço para uma agenda de estabilização fiscal e monetária.
A segunda hipótese é a do chamado ciclo político dos negócios. A ideia é que os períodos eleitorais são marcados por gestões que procuram estimular o crescimento de curto prazo e, com isso, melhorar os índices de aprovação do governo e suas chances eleitorais. Este quadro tende a ser ainda mais estimulados em ambientes eleitoralmente mais competitivos.
Para o atual momento da economia brasileira, esta é a visão mais pessimista. Isso porque mais estímulos ao crescimento podem agravar os desequilíbrios econômicos, gerando pressão de custos, inflação e pioras fiscais e em contas externas. O resultado seria menos crescimento e um quadro político ainda mais complexo.
A terceira possibilidade é que o ambiente global, marcado pela instabilidade e pelo desaquecimento econômico, pode ser um fator que limite a expansão doméstica e, com isso, as chances eleitorais do presidente. Menos previsível, o cenário eleitoral eleva o custo de se adotar políticas que se desviem do interesse coletivo a favor de preferências ideológicas, beneficiando a base eleitoral do presidente. É a tese dos pesquisadores Daniela Campello e Cesar Zucco.
O quadro atual não favorece a primeira alternativa. Com um crescimento doméstico ainda robusto e maior tranquilidade nos mercados financeiros, o governo não está pressionado. Da mesma forma, a disputa política reduz o incentivo para um ajuste fiscal relevante, capaz de gerar superávits mais elevados que mostrem o firme compromisso com a estabilidade da dívida a médio prazo.
Por outro lado, o calendário eleitoral tem incentivado políticas que estimulem o crescimento. De fato, a experiência brasileira de 2014 e 2022, analisada em estudo recente de Marcos Mendes, sugere que a hipótese do ciclo político dos negócios não pode ser descartada.
Há hoje ampliação de programas sociais, aumento de investimento das estatais e do crédito público, liberação de recursos do FGTS, uso de fundos setoriais, pagamentos de precatórios, incentivo ao gasto dos governos subnacionais, estímulos ao crédito privado, redução de impostos e controle de preços de energia e combustível.
Por fim, a terceira hipótese também faz sentido. O cenário global não parece estável e claramente positivo para os mercados emergentes. O risco de desaceleração, associado a juros internacionais mais elevados, reforça as fragilidades locais e mantém as incertezas em relação aos fluxos de capitais e ao câmbio.
As duas últimas hipóteses geram um cenário misto. Com mais estímulos do governo em um quadro externo de aversão a risco, é provável que a dinâmica de alta da dívida pública e inflação ainda elevada pressionem os juros no Brasil, que podem ficar mais elevados por mais tempo e moderem o ritmo de crescimento em 2025 e 2026.
Justamente por isso, há menos certezas em relação ao resultado eleitoral, o que limita as escolhas de políticas. Parece pouco provável que o governo aceite os riscos econômicos, financeiros e políticos de estímulos fiscais e monetários mais agressivos.
Como resultado, os próximos meses devem ser uma continuidade do que tem sido visto. Medidas que estimulem a economia, mas que sejam moderadas e pouco transparentes. Dificilmente a experiência de 2014 irá se repetir. Tudo aponta para um populismo mais envergonhado.