Cenário global domina câmbio

As oscilações recentes do real têm sido influenciadas principalmente pelo comportamento do dólar nos mercados internacionais. As dúvidas sobre a moeda norte-americana como reserva global de valor adicionam uma nova variável às projeções cambiais, enquanto riscos fiscais e eleitorais permanecem relevantes no Brasil.

As oscilações cambiais no Brasil têm sido atipicamente explicadas pelas dúvidas em relação ao papel da moeda norte-americana como reserva internacional de valor.

 

Roberto Padovani
1 de julho 2025

 

O câmbio mostrou forte oscilação nos últimos meses. Depois de sair de um patamar de R$ 5,55 em setembro de 2024, a moeda brasileira saltou para R$ 6,30 em dezembro e convergiu novamente para os níveis anteriores ao longo do primeiro semestre.

Apesar da conhecida imprevisibilidade das variáveis financeiras, os mais de 25 anos de experiência com o regime de câmbio flutuante no Brasil mostram que as oscilações no câmbio são influenciadas pelo diferencial de juros, preços de commodities, risco soberano e dólar global.

A instabilidade recente do dólar nos mercados internacionais, no entanto, foi um movimento atípico que fugiu ao padrão estatístico. Enquanto no último trimestre de 2024 houve valorização global da moeda norte-americana, a tendência a partir daí foi de queda, estabilizando-se em um dos patamares mais baixos nos últimos cinco anos.

A fragilidade fiscal doméstica também pesou no final do ano. É natural que em um ambiente de aversão a risco global, as histórias locais ganhem relevância. Este movimento foi capturado pela piora do risco soberano, fazendo o real se desvalorizar mais que seus pares.

Mesmo em cenário hipotético em que a moeda norte-americana tivesse mantido os patamares médios no primeiro semestre de 2024, e considerando os dados efetivamente observados para as demais variáveis, o real ainda teria se desvalorizado, embora de forma menos intensa. A estimativa é que a moeda poderia ter alcançado um pico mais baixo em dezembro do ano passado, próximo a R$ 5,90.

Já no primeiro semestre deste ano, a apreciação da moeda brasileira foi novamente liderada pelo dólar nos mercados internacionais, mas agora com menor peso dos fatores locais. Mesmo com o choque monetário promovido pelo banco central brasileiro, o real acompanhou as demais moedas emergentes.

Supondo que o diagnóstico da relevância dos movimentos do dólar global esteja correto, então a construção de cenários para a moeda brasileira terá um novo desafio, uma vez que a moeda norte-americana tem sido explicada por outros fatores que não apenas os tradicionais diferenciais de juros e crescimento.

Depois de toda a instabilidade econômica, financeira e geopolítica gerada pelas escolhas do novo governo norte-americano, há maior desconfiança em relação ao dólar como reserva internacional de valor, incentivando a diversificação de portfólios.

Além da leitura de uma maior fragilidade política e institucional, a trajetória de aumento da dívida pública nos Estados Unidos e um possível redesenho do comércio internacional preocupam. Curiosamente, este desconforto é compartilhado pelo consumidor norte-americano, cuja confiança está em seus níveis mais baixos em cinco décadas.

Uma forma de medir esta desconfiança é por meio do descolamento recente entre o dólar e os rendimentos dos títulos de 10 anos do governo norte-americano. A estimativa é que, mantido as correlações estatísticas históricas, o recuo da moeda norte-americana teria sido menor que a efetivamente observada, o que poderia ter sustentado o real mais próximo a R$ 6,0.

As projeções para o câmbio, portanto, não são obvias. Além do impacto negativo gerado por um esperado corte de juros em 2026 e da posição fiscal e o quadro eleitoral locais tornarem o cenário propenso a acidentes, será preciso mais tempo para avaliar se há, de fato, uma mudança em curso relação ao dólar como reserva de valor. 

Não por outro motivo, a dispersão das projeções voltou a se ampliar depois dos anos mais complicados da pandemia.

 

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