Volatilidade global afeta eleições

A instabilidade global pode afetar o crescimento econômico, o consumo e a avaliação do governo no Brasil. Em um cenário de maior volatilidade externa, inflação e juros elevados tornam mais difícil a recuperação da popularidade presidencial e ampliam os desafios políticos para 2026.

A instabilidade global influencia o crescimento doméstico e a avaliação do presidente, tornando a vida do governo politicamente mais difícil.

 

Roberto Padovani
08 de abril 2025

 

As incertezas globais vividas nos últimos dias não devem ser neutras para o ambiente político doméstico.

Os trabalhos de Daniela Campello e Cesar Zucco, apresentados no livro “The volatility curse” de 2021, mostram que os choques globais influenciam o desempenho das economias sul-americanas e as chances eleitorais dos presidentes. Três argumentos principais são utilizados.

O primeiro é que as economias da região são mais vulneráveis a choques externos por serem dependentes das exportações de commodities e da poupança externa. De fato, os juros de 10 anos nos Estados Unidos e a cesta de commodities mostram correlação e causalidade com o consumo doméstico.

O segundo argumento é que nem sempre é simples para os eleitores saber se o desempenho econômico é explicado pelas escolhas locais de políticas (competência) ou por choques externos (sorte). Para os autores, temas como acesso à informação, capacidade analítica/cognitiva e preferências afetivas são obstáculos para a correta identificação dos componentes internos e externos dos ciclos econômicos.

O último argumento é que a dificuldade de avaliação econômica e de responsabilização dos governos pelo desempenho da economia influencia o ambiente político por meio da correlação positiva entre choques externos, popularidade presidencial e resultados eleitorais.

Para os autores, o destino eleitoral dos governos depende mais da sorte de ciclos globais favoráveis que da competência na administração da economia. Governos incompetentes, mas com a sorte de choques externos positivos, têm mais chances de serem reeleitos que presidentes competentes, mas cujos mandatos ocorrem em períodos de turbulência global.

O fato de a sorte ser mais importante que o mérito para o sucesso eleitoral faz com que as eleições deixem de exercer sua função disciplinadora, selecionando bons governo e punindo más gestões.

Com isso, ciclos globais favoráveis acabam reduzindo o custo para desvios entre o interesse coletivo e as preferências ideológicas do presidente, abrindo espaço para escolhas que levem a desperdícios, corrupção e retrocessos institucionais. As fortes oscilações na economia e na política explicariam a “maldição da volatilidade”.

Este modelo pode ser aplicado ao momento atual. As incertezas em relação às tarifas norte-americanas devem conduzir a um quadro global de desaceleração econômica e pressão inflacionária. Como a queda de preços de matérias primas e a manutenção de juros internacionais elevados tendem a penalizar o crescimento local, a recuperação da popularidade do presidente fica mais complicada, colocando em risco seu sucesso eleitoral.

Ao contrário do modelo de Campello e Zucco, no entanto, talvez o espaço para a competência seja maior. A experiência brasileira recente mostra que as escolhas locais podem ampliar ou suavizar os ciclos globais.

Este pode ser um problema neste momento. É possível que a queda recente e atípica observada nas pesquisas de avaliação de governo esteja associada ao custo de vida. Neste caso, uma reação política de mais estímulos tende a agravar a situação.

De fato, a escolha por mais estímulos, como ampliação do crédito público e privado, aumento dos programas sociais, investimento das estatais, liberação de fundos setoriais, isenção de impostos, pagamento de precatórios, incentivo ao gasto dos governos subnacionais e controle de preços de energia, ocorre em um momento em que a economia já opera acima de sua capacidade.

O resultado deve ser piora inflacionária e desequilíbrio das contas externas. A gestão fiscal também não ajuda. Diante de um quadro global de aversão a risco, em que as fragilidades locais ganham visibilidade, a tendência de alta da dívida pública deve pressionar os fluxos financeiros e levar a um câmbio mais desvalorizado, agravando a pressão na inflação.

Não por outro motivo, as pesquisas mostram que parte da população acredita que as condições de vida vão piorar, com alta da inflação e aumento do custo de vida.

Por último, dado o objetivo do Banco Central de controlar a inflação por meio de um aperto monetário que aproxime o crescimento de seu potencial, a alta de juros encontra famílias e empresas endividadas, piorando as condições de crédito, aumentando o desemprego e reduzindo o consumo. 

O esfriamento do consumo, porém, tende a ser mais um fator que atrapalha a recuperação da popularidade do presidente. Em linha com a pesquisa acadêmica e com o padrão histórico, as condições de consumo são um critério importante de julgamento de um governo. Não é diferente no Brasil.

Todos estes fatores não significam que o cenário global e os incentivos ao populismo doméstico irão determinar o resultado eleitoral de 2026. Mas os argumentos sugerem que o governo não terá vida fácil.

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