Moedas digitais limitam governo

A digitalização dos meios de pagamento está transformando o sistema financeiro, ampliando a competição, reduzindo custos e criando novas possibilidades para o crédito. Ao mesmo tempo, moedas digitais e novas tecnologias aumentam a velocidade dos fluxos financeiros, impondo novos desafios aos governos e podendo ampliar tensões políticas e sociais.

A digitalização dos meios de pagamento é um caminho sem volta e pode aumentar tanto a eficiência do sistema econômico quanto os ruídos políticos.

 

Roberto Padovani
15 de julho 2025

 

O mercado financeiro vem passando por transformações tecnológicas importantes. Ainda que seus impactos não sejam plenamente antecipáveis, as mudanças devem trazer várias repercussões econômicas e políticas.

Esta parece ser a regra. Os avanços produzidos pela internet e pelos celulares nas últimas três décadas permitiram a digitalização de processos, maior foco nos clientes e a criação e o redesenho de mercados. A pandemia acelerou as mudanças ao popularizar os serviços digitais. A fragmentação do mercado de trabalho, com novas alternativas de emprego, é um bom exemplo.

Na indústria financeira, bancos digitais e plataformas de investimentos redefiniram o mercado. As fintechs aumentaram a oferta de serviços e seguem desafiando a liderança dos bancos incumbentes e contribuindo para a menor a concentração bancária.

Novos meios de pagamentos eletrônicos, instantâneos e gratuitos, aumentam a inclusão financeira e incentivam o comércio eletrônico ao modernizar as transações. O open banking eleva a competição e reduz custos de transação ao compartilhar informações e permitir mais conexão, comparabilidade e portabilidade. É um market place que chega à indústria financeira para também trazer mais escolhas ao consumidor.

A tecnologia do blockchain abriu espaço para a digitalização das moedas e para a tokenização de produtos de investimento, ampliando a fungibilidade, a liquidez e a diversificação de ativos e riscos.

Mas embora as stablecoins mostrem boa aceitação nos mercados em função de seu lastro, as criptomoedas têm mostrado dificuldades em substituir plenamente a moeda física. Na maior parte dos casos, são utilizadas mais como investimentos que como meio de pagamento, dado que as transações, em geral, não são instantâneas, têm custo elevado e cotações instáveis.

Também não são unidade de conta pelo fato de bens e serviços não serem cotados em criptomoedas e, sem governos que garantam sua estabilidade e aceitação de longo prazo, são reservas de valor imperfeitas.

Do ponto de vista sistêmico, as restrições de oferta das criptomoedas trazem rigidez. Equivalem a um padrão ouro que não permite atender a demanda por meio circulante em economias complexas e voláteis. Apenas em situações de profunda desorganização institucional e econômica se apresentam como alternativas.

Justamente por isso, os governos se tornaram atores relevantes no processo de inovação financeira com as chamadas moedas digitais dos bancos centrais (CBDC).

Sendo um complemento ao meio circulante oficial, o processo deve ser associado a contas bancárias e custodiadas nos bancos comerciais, dadas as necessidades de mitigar riscos de segurança e de desintermediação financeira. 

O uso da tecnologia da tokenização traz ao sistema de pagamentos mais segurança, inteligência financeira e funcionalidade ao agregar informações e capacidade de programar a execução de contratos e garantias. Além disso, cria a infraestrutura e um ambiente institucional que permitem a integração de sistemas e espaço para mais inovações tecnológicas e financeiras.

Como resultado, os custos associados à produção, distribuição e segurança das moedas físicas devem ser superados. Será possível inovar e, ao mesmo tempo, preservar os conceitos de moeda. Justamente por isso, a digitalização é um caminho sem volta. A era do dinheiro físico caminha para seu fim, com as moedas virando peças para colecionadores por seu valor histórico e estético.

Este novo mundo das moedas digitais traz oportunidades e riscos. Por um lado, favorece o aprofundamento do crédito e a descentralização financeira, com a redefinição de agentes e papéis. O resultado provável tende a ser a maior capacidade de crescimento de longo prazo.

No caso brasileiro, menores barreiras à entrada, redução do custo de funding e o aumento das informações ampliam a competição no mercado de crédito e de serviços financeiros, reduzindo os spreads bancários.

Com maior confiança no fluxo de caixa e acesso ao crédito de forma mais rápida e barata, o risco operacional na gestão financeira das empresas se reduz, permitindo melhor uso do capital.

Do lado dos riscos, porém, há o desafio de superar a falta de inclusão digital, uma vez que parte da população tem acesso limitado à internet e à educação financeira. Da mesma forma, a nova tecnologia aumenta as chances de crises de confiança potencializadas por corridas bancárias e fuga de capitais.

Com maior integração financeira e velocidade na circulação de informações, a facilidade de saques permite que investidores penalizem mais rapidamente erros de gestão de governos, restringindo as escolhas públicas ao produzir resultados econômicos e políticos desfavoráveis.

De fato, a tecnologia não supera o desafio da moeda fiduciária, que é a construção de credibilidade na capacidade de os governos financiarem seus gastos. A moeda continua sendo um fenômeno essencialmente político, principalmente em um contexto de disputas geopolíticas e redesenho do comércio internacional.

Isso sugere que embora a integração tecnológica de mercados possa ser vista de modo positivo por impor maior disciplina à gestão de bancos, empresas e governos, a limitação nas escolhas de governo em um mundo em transformação, que demanda mais respostas do Estado, tende a ser fonte de insatisfação.

A dificuldade do sistema político em apresentar respostas pode reforçar a irritação social e favorecer discursos populistas antissistema. A história mostra que a integração de mercados e a globalização financeira não trouxeram mais estabilidade política.

Em função destes desafios, os movimentos têm sido cautelosos e há governos contrários ao uso das moedas digitais. Sistemas, conceitos e usos ainda estão sendo testados junto ao mercado, com atenção às experiências internacionais.

O resultado final não é claro e os avanços tecnológicos sempre podem trazer resultados inesperados. Mas faz sentido supor que, apesar de a oferta de serviços e produtos digitais incentivar juros menores, eficiência sistêmica e maior produtividade, o processo pode ser acompanhado por ansiedade e desconforto social, ampliando os ruídos políticos.

A experiência recente mostra que o medo do futuro reforça o mito de um passado melhor, ingredientes que alimentam o populismo.

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