As três histórias de 2024

Corte nos juros internacionais, dúvidas em relação à gestão econômica local e resistência a choques no Brasil são temas que devem balizar os mercados domésticos neste ano.

Roberto Padovani
02 de janeiro 2024

O ano que se inicia deve ser marcado por três histórias principais. Alívio no crédito local e global, dúvidas sobre a gestão econômica no Brasil e resistência da economia a choques são os temas que devem guiar os mercados locais nos próximos meses.

O cenário externo deverá continuar sendo a principal história e fonte de volatilidade nos mercados. A leitura otimista é que a inflação na Europa e nos Estados Unidos foi controlada com poucos custos. Com a convergência para a meta assegurada, os bancos centrais já podem iniciar um processo de afrouxamento monetário no primeiro semestre, sustentando crescimento e liquidez. Nesta situação, os fluxos para os mercados emergentes são beneficiados e os preços de commodities se sustentam em bons patamares. Com câmbio menos pressionado, a desinflação no Brasil se consolida e permite novos cortes de juros.

Na visão mais negativa, mercados de trabalho apertados, incertezas fiscais nos Estados Unidos e China deixando de ser exportadora de desinflação fazem com que haja maior dificuldade na convergência dos núcleos, o que exige juros elevados por mais tempo e uma desaceleração econômica mais forte. Neste caso, os preços de commodities continuariam em canal de baixa, com alta no risco global e menor atratividade dos mercados emergentes.

A indefinição do cenário deverá implicar volatilidade financeira no ano, como tem sido o padrão desde 2022. Seja qual for o caso, no entanto, com mais ou menos custo em termos de crescimento para controlar a inflação, a leitura é que o início do relaxamento monetário global deve ter início em 2024 e manter o espaço para redução dos juros reais no Brasil.

O segundo tema que deverá pautar os mercados é a questão fiscal e monetária no Brasil. Além das dúvidas em relação à capacidade de o governo alcançar as metas fiscais propostas, o ciclo político deverá elevar as incertezas em torno das contas públicas.

Com uma trajetória de alta da dívida e com o fim dos choques favoráveis na inflação, faz sentido esperar que a dificuldade de se ancorar as expectativas de inflação se mantenha. Neste ambiente, o debate sobre a transição no Banco Central deverá ganhar destaque.

A experiência internacional mostra que os mercados costumam acompanhar com interesse mudanças nos bancos centrais, dado que as trocas podem alterar a postura em relação à inflação. Justamente por isso, o padrão é que o fim dos mandatos e o início de novas diretorias tenham posturas mais conservadoras[1] para ancorar as expectativas.

Considerando o cenário atual, no entanto, é possível que os custos políticos em termos de emprego para se construir reputação não incentivem a cautela, o que poderá fazer com que os juros continuem em queda mesmo com desvios das expectativas de inflação.

Como é sempre difícil diferenciar uma trajetória de lenta convergência em direção à meta de uma estratégia de simples tolerância com a inflação, as dúvidas em relação à transição no Banco Central podem reforçar a desancoragem das expectativas e pressionar o mercado futuro de juros.

Por último, mesmo em um cenário de instabilidade financeira gerada pela política monetária externa e por dúvidas em relação à gestão econômica no Brasil, a economia deverá se manter resistente a choques. As reformas feitas nos últimos anos, o bom desempenho do mercado de trabalho e a mudança estrutural observada no agronegócio, transformando o País em um produtor global, reduzem os riscos econômicos, financeiros e políticos.

Combinadas, estas três histórias desenham um cenário de alívio no crédito, crescimento econômico moderado e instabilidade financeira.

[1] Carvalho, C., Flórido, T., Zilberman, E., “Transitions in Central Bank Leadership”, Jun/2015.

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