A experiência mostra que a dificuldade em se arbitrar os custos da estabilização leva a adiamentos de decisões e a crises econômicas e políticas.
Roberto Padovani
04 de fevereiro 2025
Ao final de 2024, o Ministro da Fazenda reconheceu a dificuldade em se fazer o ajuste fiscal. Para ele, a esquerda é contra cortar gastos e a direita não apoia o aumento de impostos.
Esta avaliação chama atenção por dois aspectos. O primeiro é que raramente as dificuldades de gestão têm sido reconhecidas. O padrão é que os temas econômicos sejam politizados e problemas e erros sejam atribuídos a governos anteriores, ao Congresso e às ações supostamente interessadas do mercado financeiro. As declarações costumam ser partidárias, feitas por operadores políticos de olho no cálculo eleitoral.
Justamente por isso, o reconhecimento das dificuldades do ajuste é um sinal de que as coisas não caminham bem em termos de disposição política para se corrigir os rumos fiscais, o que reforça as dúvidas em relação às reais intenções em se adotar medidas de estabilização.
A segunda avaliação, mais importante, é que o comentário do Ministro é compatível com a literatura acadêmica, sugerindo um cenário de crise econômica e maior competição política à frente.
Alberto Alesina desenvolveu nos anos 1980 o modelo da “guerra de desgaste” (war of attrition), segundo a qual as reformas são feitas após um período de disputa social e política sobre o tipo de ajuste a ser feito e, principalmente, sobre a distribuição de seus custos.
A ideia está em jogar para o adversário a maior parcela dos custos das mudanças. O problema é que os grupos em conflito não sabem a força do oponente e sua capacidade para esperar e suportar o desgaste de se adiar a estabilização. Este cálculo explica a resistência em mudar e os impasses que levam à postergação das reformas.
Apesar de o adiamento dos ajustes prejudicar a sociedade como um todo, a racionalidade individual incentiva a espera como estratégia para se evitar os custos da estabilização, gerando um conflito político de difícil solução.
A pesquisa acadêmica mostra também que este cenário é agravado em sociedades heterogêneas, onde interesses conflitantes e competição política dificultam a construção de consensos sobre a agenda econômica e sobre a distribuição de custos e benefícios das mudanças. No caso específico das agendas de estabilização fiscal, aumentar impostos ou cortar gastos faz diferença em termos de impactos sobre setores sociais e bases de apoio político.
O modelo da “guerra de desgaste” sugere que a saída do impasse está, paradoxalmente, no agravamento dos problemas. O desconforto gerado pelos desequilíbrios econômicos faz com que os grupos mais expostos aos custos da crise desistam de bloquear ajustes e reformas.
As mudanças se tornam viáveis apenas quando parte da sociedade percebe que o custo de adiar as reformas é maior que o benefício esperado de postergar sua aprovação, corroendo sua força política e a capacidade de resistir às mudanças.
Ao final, a crise supera os impasses, com os setores mais fracos cedendo e assumindo custos de forma desigual. A ideia é que a passagem do tempo leva a crises e a um redesenho das forças políticas que permitam fazer escolhas.
Trata-se de um modelo baseado na relação de custo e benefício da espera, com o tempo superando os impasses e arbitrando ganhadores e perdedores. A intensidade das crises geradas pelo adiamento das reformas afeta a disputa social e política e incentiva a mudança. Neste caso, quanto mais longa a instabilidade, mais provável se torna o ajuste.
O modelo foi aplicado no passado aos casos de hiperinflação. Enquanto a inflação era apenas elevada, mecanismos institucionais, como a indexação, ajudavam a reduzir os custos sociais dos desequilíbrios e permitiam conviver com os problemas, postergando os ajustes. A superação dos impasses, no entanto, ocorria com o agravamento da crise. Curiosamente, a experiência mostrou que era mais fácil controlar processos de hiperinflação que de inflação elevada.
Aplicado ao Brasil de 2025, o modelo de Alesina sugere que o impasse político em se fazer o ajuste fiscal levará a um agravamento dos desequilíbrios e a uma crise que permita o redesenho das forças políticas, tornando possível a correção das contas públicas.
Se a pesquisa acadêmica estiver correta, portanto, tudo indica que o país caminha para uma crise econômica e política à frente. Serão três anos difíceis.