Antecipando o ciclo eleitoral

A queda na avaliação do governo, somada à inflação elevada e ao aperto monetário, aumenta as incertezas sobre o cenário político. Com menor espaço para uma recuperação da popularidade, os mercados tendem a antecipar as discussões sobre a disputa presidencial de 2026.

O aperto monetário reduz as chances de uma reversão nas pesquisas de avaliação de governo, incentivando a antecipação de uma corrida presidencial competitiva em 2026.

 

Roberto Padovani
25 de março 2025

 

Uma das informações domésticas mais relevantes para quem acompanha o cenário econômico brasileiro neste início de ano foi a acentuada queda da avaliação de governo mostrada por diversas pesquisas de opinião pública. Esta informação, associada aos cenários para os próximos dois anos, é um forte incentivo para os mercados anteciparem o ciclo eleitoral de 2026.

Utilizando o Datafolha como referência, a pesquisa mostrou um tombo para 24% em janeiro de 2025 depois de a avaliação “ótimo e bom” ter oscilado ao redor de 36% ao longo de 2023 e 2024. Com intensidades diferentes, outras pesquisas mostraram o mesmo movimento. 

Há certo consenso de que esta queda é atípica. A experiência internacional e a literatura econômica mostram que o desempenho da economia é um critério relevante na avaliação dos governos. No caso brasileiro, o padrão histórico mostra que a popularidade do presidente acompanha as condições de consumo.

Neste caso, a expectativa seria de melhoria na avaliação do governo, e não queda. O baixo desemprego e os programas de transferência têm feito com que a renda real disponível cresça a um ritmo próximo ao observado durante o ciclo de commodities, explicando a expansão do comércio varejista. A pesquisa mensal do comércio do IBGE mostra uma alta de 1,7% em 2023 e de 4,4% em 2024. Nestes dois últimos anos, o crescimento anual médio do PIB superou 3,0%.

Mesmo com estes bons resultados, no entanto, a economia tem produzido efeitos limitados sobre a popularidade. Não é óbvio entender as razões deste comportamento. Do ponto de vista político, não houve protestos e escândalos, fatores que tradicionalmente acompanham as quedas nas avaliações de governo.

Os temas da polarização e insatisfação com a democracia não são novos. Da mesma forma, eventuais insatisfações com a gestão pública, ruídos na comunicação, isolamento do presidente e mudanças de perfil do eleitorado, que deixou de associar os programas sociais a um único governo, não parecem suficientes para explicar a piora relevante da avaliação em um momento específico do tempo. No Brasil, os eleitores não costumam usar a ideologia ou as leituras sobre as políticas públicas como critérios para julgar um presidente.

Neste caso, as condições de vida experimentadas cotidianamente ainda podem fazer sentido. Chama atenção que a confiança do consumidor, corrigida dos fatores sazonais, também mostrou recuo importante depois de dezembro.

Embora a inflação de alimentos seja apontada como o principal problema, esta não tem sido uma variável relevante para explicar a popularidade dos presidentes nos últimos anos. Além disso, o comportamento do item “alimentação no domicílio” do IPCA não mostra um movimento fora do padrão.

O indicador saiu de um quadro de deflação ao final de 2023 para voltar para patamares próximos à média história anual de 7,5%. Os dados mensais mostraram picos no início de 2024 semelhantes, mas sem impactos políticos.

Uma alternativa para entender o desconforto do consumidor e do eleitor talvez seja algo mais amplo, como o custo de vida. Ainda que esta variável também não tenha sido uma boa referência no passado para analisar o desempenho dos governos, é possível que o nível de preços seja uma novidade após a pandemia. Assim como este foi um fator de insatisfação nos Estados Unidos, pode ser o caso também no Brasil.

De fato, os preços se encontram em níveis bastante elevados desde o choque inflacionário de 2021 e a cesta básica voltou a ficar pressionada no segundo semestre de 2024. Para piorar, a inflação tem mostrado aceleração desde 2024, com o grupo de serviços alcançando nos doze meses encerrados em fevereiro o patamar de 6,2%.

Neste contexto, os choques recentes em preços de alta visibilidade, como câmbio, café e proteínas, reforçam a percepção de que tudo está caro e podem compensar as boas notícias de emprego e renda. Algumas pesquisas mostram que a inflação é a principal fragilidade de um governo que, ironicamente, coordenou duras críticas à condução da política monetária.

Do ponto de vista dos mercados, no entanto, mais que um bom diagnóstico para o comportamento das pesquisas de opinião, importa a visão de que a dinâmica econômica dos próximos meses dificulta uma reversão significativa deste cenário, elevando a competição eleitoral. Supondo que não haja a sorte de um quadro global favorável, a trajetória de alta do endividamento público deve continuar deteriorando as condições financeiras e o consumo.

 A reação do governo não ajuda. Não apenas o crescimento econômico e a relativa tranquilidade financeira neste início de ano não pressionam por mudanças, mas as pesquisas desfavoráveis incentivam medidas para estimular o crescimento de curto prazo. Como a economia já opera acima de sua capacidade, a expectativa é que os desequilíbrios sejam agravados, impactando ainda mais o custo de vida.

Neste caso, o passado traz sinais importantes. Apesar de as nove eleições presidenciais observadas desde o final dos anos 1980 não permitirem conclusões estatísticas relevantes, chama atenção o fato de os presidentes com avaliações “ótimo e bom” abaixo de 40%, ou com desaprovações acima das aprovações, terem desistido de suas candidaturas ou simplesmente não terem sido reeleitos ou feito sucessores. Foram as histórias de 1989, 2002, 2018 e 2022.

Este quadro afeta a construção de cenários. Mesmo que o governo conte com um nível ainda confortável da aprovação e a oposição se mostre desorganizada, as informações disponíveis não podem ser ignoradas. A probabilidade de mudança política existe e parece crescente.

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