As ações do governo norte-americano têm sido a principal fonte da instabilidade global e possui uma lógica essencialmente política.
Roberto Padovani
06 de junho 2025
Há uma tentativa generalizada de se entender a lógica das escolhas do novo governo norte-americano e, com isso, antecipar seus próximos passos. Uma interpretação possível é que as decisões são guiadas mais por uma racionalidade política que econômica. Se é este o caso, então tudo sugere que a economia irá limitar a política.
Os argumentos utilizados pelo governo têm como base a ideia de superar uma suposta estagnação da economia por meio da imposição de tarifas que reduzam o déficit comercial e permitam reindustrializar o país.
Estes argumentos são polêmicos. Há poucos sinais de que os Estados Unidos estejam em decadência. Além de contar com as principais empresas de tecnologia, segue sendo uma economia flexível, dinâmica e referência em termos de produtividade.
Existe também relativo consenso de que o déficit em conta corrente poderia ser melhor enfrentado com o uso do instrumento fiscal, e não tarifário. O ajuste nas contas públicas teria a vantagem de resgatar a confiança na estabilidade da dívida pública e, ao mesmo tempo, corrigir a balança comercial com menos ruídos e retaliações.
Por fim, parece pouco provável que se consiga reimportar a indústria. Além de o setor dinâmico ser o de serviços, a internacionalização das cadeias de produção é um movimento que vem sendo feito ao longo das últimas três décadas e que dificilmente será revertido no curto prazo. As estratégias corporativas parecem ter horizontes mais longos que os do governo.
Se não há uma clara lógica econômica nas ações norte-americanas, talvez a principal motivação esteja na política, marcada internamente pelo populismo e, externamente, pelo confronto com a China.
O populismo ajuda a explicar a relativa autonomia da política neste momento. A insatisfação com temas como agenda de costumes, custo de vida, imigração e a insegurança trazida pela ascensão da China se misturam a interesses protecionistas e geram frustração e impaciência com a democracia.
A irritação de parte da sociedade tem sido capturada com sucesso por um líder carismático, com um discurso que segue a cartilha populista. O roteiro é conhecido. Adota-se uma retórica violenta e maniqueísta, acompanhada por uma postura mal-educada que busca soluções fáceis e rápidas.
As instituições são um alvo tradicional por serem, supostamente, dominadas por uma elite desonesta e disposta a prejudicar o povo norte-americano. Por esta ótica, faz sentido desmontar a burocracia do Estado, atacar o banco central, brigar com universidades e sair de acordos e organismos internacionais. O sistema, em tese, deve ser combatido por ser corrupto e ideologicamente orientado.
O estilo e as crenças pessoais se adequam bem ao figurino populista. A estratégia é de ataques frequentes, negociações agressivas e versões superlativas e descoladas da realidade. No campo das ideias, as visões autoritárias e imperialistas se confundem com uma postura intervencionista e de fechamento comercial.
Esta postura pessoal tem encontrado poucos limites. Embora exista alguma resistência da burocracia, o esforço da assessoria do presidente tem sido no sentido de dar roupagem técnica às preferências do presidente. O objetivo de causar espanto no establishment econômico, financeiro e acadêmico tem tido sucesso e, não por outro motivo, os vários debates dos anos 1960, 1980 e 1990 sobre as vantagens do livre comércio vêm sendo resgatados.
A prevalência da política se manifesta também na questão externa. Desde o primeiro mandato, há uma reorientação da diplomacia norte-americana. Superada a guerra fria e a dependência do petróleo, o foco deixou de ser Europa Oriental e Oriente Médio para, finalmente, se concentrar na chamada tensão do Pacífico.
Este é um tema de Estado. Independentemente de a administração ser republicana ou democrata, o objetivo está em isolar, enfraquecer e retardar o desenvolvimento da China, potência em ascensão. Esta leitura ajuda a explicar a ênfase dada à Ucrânia, Groenlândia e Panamá.
Curiosamente, no entanto, apesar de a lógica do governo ser mais política que econômica, a economia será o fator limitador da política. Populismo e geopolítica não podem ficar descasados por muito tempo do contexto em que operam.
Os modelos de ciência política mostram que tensões financeiras impactam o consumo e as avaliações de governo, um bom indicador antecedente do desempenho eleitoral do incumbente.
Neste sentido, os primeiros freios começam a aparecer. A volatilidade de bolsa, juros e moeda leva a uma piora das condições financeiras, destruindo riqueza e trazendo preocupação para consumidores e eleitores. Não por outro motivo, as pesquisas de opinião pública indicam queda na popularidade do presidente e a confiança do consumidor mostra recuo, mesmo entre os republicanos.
No mundo empresarial, tem sido explícita a pressão de setores que perdem com imposição de tarifas, aumento de custos, imprevisibilidade e menor acesso a mercados. Há incomodo inclusive entre aliados.
As tensões financeiras e econômicas, por sua vez, elevam o risco de perda de apoios e de derrota nas eleições de meio de mandato. Externamente, os Estados Unidos acumulam derrotas em várias frentes, refletindo mais fragilidades que estratégias de negociação.
Vale notar, contudo, que embora os custos econômicos, financeiros e políticos já tenham produzido mudanças na política tarifária e trazido certa tranquilidade aos mercados, o tema geopolítico e o padrão de conflitos permanentes, típico do populismo, continuam firmes.
É cedo para dizer, por exemplo, que a escalada de tensões com a China e agenda de costumes e de controle da imigração serão revistas. Será preciso piorar antes de melhorar. Por este aspecto, a materialização dos danos financeiros, econômicos e institucionais podem impor restrições adicionais às escolhas do presidente.
A instabilidade gerada pelo redesenho da ordem global e uma eventual alta do custo de vida são fontes potenciais de desgaste. Não por outro motivo, os discursos populistas costumam ter mais sucesso eleitoral que capacidade de manter o poder.
O aprendizado, portanto, é que embora a lógica das ações do novo governo esteja na política, serão os danos econômicos e institucionais que irão limitar suas escolhas e corrigir rumos. Até lá, tem muita confusão à vista.